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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

GRANDE INCÊNDIO - avultados prejuizos (no Pereiro)

Era este o titulo de uma notícia trágica, publicada no trimensário "A Voz da Serra" na vila de CEIA a 29 de Junho de 1921. Tinha como director, proprietário, e editor o Sr. Luís Ferreira Matias.
"Na noite de ante-ontem, um pavoroso incendio devorou a fabrica de lanifícios pertencente à firma Pereira & Genro, Sucessores, situada no lugar do Pereiro, deste Concelho, de que fazem parte os srs. Dr. Antonio Simões Pereira e Antonio Marques da Silva.
Tudo o fogo destruiu, inclusivé a escrituração.
Os prejuisos são importantes." (noticia transcrita na integra e conforme publicada no respectivo jornal)
Post anterior sobre a mesma fábrica; Sabia que... III
No inicio do século António Pereira, de Quintela, estabeleceu, junto ao Rio Ceia, no lugar de Pereiro, uma empresa do mesmo ramo. Em Junho de 1921, esta fábrica, pertencente então a Pereira & Genro, Sucessores - sociedade da qual faziam parte o Dr. Simões Pereira e seu sogro António Marques da Silva, foi destruída por violento incêndio.
Actualmente transformada em casa de habitação. Tendo um moinho movido a água.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sabia que... III

Fontes:

"Seia - porta aberta para a Serra da Estrela..." - Héstia editores (2002)
"O Concelho de Seia em Tempo de Mudança", dos finais do século XIX ao desabar da 1ª República - Maria Lúcia Brito Moura (1997)

Entretanto, mais nomes de fábricas foram surgindo, o que, conforme foi já sublinhado, nem sempre corresponde ao aparecimento de novas empresas. Eram sociedades que se desfaziam, eram outras que tentavam lançar-se na industria tradicional, empregando capitais frequentemente acumulados no Brasil. Na primeira década do século surgiram a António Camello & Irmãos e a Martins & Camello em S. Romão, bem como a António Cabral e a Leitão & Irmãos em Loriga. As principais povoações ligadas à indústria continuam a ser Loriga, S. Romão e Alvoco da Serra. Contudo, em outras aldeias vão surgindo empresas de média dimensão. Vila Cova, no romper do século XX, tinha uma fábrica de lanifícios que pertencia a Joaquim da Silva Abranches. No inicio do século António Pereira, de Quintela, estabeleceu, junto ao Rio Ceia, no lugar de Pereiro, uma empresa do mesmo ramo. Em Junho de 1921, esta fábrica, pertencente então a Pereira & Genro, Sucessores - sociedade da qual faziam parte o Dr. Simões Pereira e seu sogro António Marques da Silva, foi destruída por violento incêndio.
A existência  de muitas empresas de pequena dimensão, onde decorriam, na maior parte dos casos, todas as operações de transformação da lã, não conduzia ao avanço técnico. Os inquiridores de 1881 aperceberam-se disto, denunciando a falta de instrução e de união entre os industriais que preferiam ter empresas sem viabilidade, quando poderiam associar esforços e capitais. Apontaram como exemplo Loriga, com sete fábricas, algumas com "vida enfezada", quando poderiam ter somente uma ou duas "que enriqueceriam aquela pequena vila". A Augusto Luiz Mendes & Sócios era uma exemplo de como era difícil constituir uma sociedade. Existia somente para a posse da fábrica mas não para a produção, pois os sócios serviam-se das máquinas às semanas, produzindo cada um para si separadamente. O trabalho das escolhedeiras, urdideiras e espinçadeiras, bem como a tinturaria, era feito em casa dos sócios. Este tipo de sociedade não se manteve por muito tempo. O Inquérito Industrial de 1890 já indicava a fábrica de Augusto Luiz Mendes, no sítio da Redondinha.
Um outro bloqueio ao desenvolvimento desta industria prendia-se com a falta de uma rede viária, o que aumentava os custos de transporte, quer de matérias primas quer de produtos acabados. Em 1910 um loriguense lamentava que "a mais importante povoação do concelho" não tivesse ainda uma estrada com ligação a Seia, pois que essa via, há muito projectada e iniciada há anos, estava longe de concluída, chegando a Valezim, a 9 Kms de distância. Assim, os custos de transporte entre a estação de caminho de ferro mais próxima - Nelas - e Loriga sofriam um considerável acréscimo, não contando com o tempo gasto e a necessidade de transbordo, efectuado em São Romão, dos carros para o dorso de animais que seguiam pelo caminho velho. Se isto era assim para os de Loriga, que dizer de Alvoco da Serra, outra aldeia com indústria, situada a cerca de 27 Kms da sede do concelho?
Contudo, a respeito de Loriga, apontada muitas vezes como "a mais importante povoação do concelho", alguns anos depois, o jovem advogado Avelino Cunhal, ao transmitir, em sessão realizada a 15 de Dezembro de 1918, as impressões colhidas numa visita que aí efectuou, confessava-se surpreendido com o movimento fabril e importância das transacções comerciais, isto apesar do isolamento em que viviam os loriguenses, ainda sem verem concluída a estrada, iniciada há muitos anos.
Se atendermos ao panorama geral da indústria nacional, talvez a da região não se encontrassem num estado muito lastimoso. Os prémios atribuídos a industriais do concelho no Segundo Congresso Beirão, parecem comprová-lo. António Alves da Rocha (Sucessores), de S. Romão e Augusto Luís Mendes & Cia, de Loriga, receberam medalhas de prata no fabrico de surrobecos; Viúva Domigos Mendes Martins & Filhos, de S. Romão, recebeu menção honrosa no domínio de lanifícios; menção honrosa, receberam igualmente António Alves da Rocha (Sucessores) relativamente a mantas e Leitão & Irmãos em surrobecos. A firma Viúva Domingos Mendes Martins recebeu um convite do governo para se fazer representar na exposição do Rio de Janeiro, a realizar pouco tempo depois.
O trabalho de transformação da lã não se limitava às fábricas. No concelho existiam ainda pequenas unidades ligadas aos têxteis e que teimosamente, continuavam a sobreviver. O Inquérito Industrial de 1890 dá-nos conta da existência de cinco pisoeiros e 101 tecelões, sendo 71 homens e trinta mulheres. Para lá destes artesãos ligados aos têxteis, havia no concelho, segundo a mesma fonte, 23 curtidores, 112 sapateiros, 2 tamanqueiros, 62 alfaiates, 11 ferradores, 6 funileiros, 34 pedreiros, 3 caldeireiros, 14 cesteiros, 72 moleiros e 18 trabalhadores de cerâmica.
Nada mau para um concelho de montanha e do interior. Por comparação com a situação que se verificava em 1878, há um relativo progresso:
      "Em 1878, o concelho produzia abundante centeio, azeite, frutas, excelente vinho, gado e caça (...) fazia importante comércio de lãs com as províncias do Norte de Portugal e Galiza; os industriais inscritos na matriz eram 1500 que gozavam de contribuições 2.250$647 réis, sendo 10 fabricantes de aguardente, 34 de azeite, 13 cardos, 6 fabricantes de curtumes, 13 fábricas de algodão, 22 pisões, 4 prensas de panos, 1 fábrica de sabão, 10 de telha, 22 tosadores de pano, 5 teares de tecidos de lã, 18 mercadores de algodão, 126 mercadores de lã em bruto, 6  de linho em rama, 54 de lã por miúdo, 54 de peles para curtir e 34 fabricantes de louça ordinária. O número de prédios inscritos na matriz era de 46.761, o rendimento colectável era de 95.798$761 réis e a contribuição predial de 5.440$26 réis" (Dicionário de Geografia universal, 1878)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sabia que... II

Fontes:
"Seia - porta aberta para a Serra da Estrela..." - Héstia editores (2002)
"O Concelho de Seia em Tempo de Mudança", dos finais do século XIX ao desabar da 1ª República - Maria Lúcia Brito Moura (1997)
"Monografia da Cidade e Concelho de Seia" - Padre Dr. J. Quelhas Bigotte (1992, 3ª edição) 

No inicio do séc. XIX, a crise acentuou-se, com as invasões francesas, abertura dos portos brasileiros e a outras nações e com o reforço do tratado comercial com a Inglaterra. Isto tudo prejudicou os lanifícios portugueses. Em 1818 as exportações de lanifícios caíram para 1/6 em relação ao ano de 1796. Só no segundo quartel do mesmo séc. aparecem os grandes investimentos capitalistas no sector. A industria de lanifícios tinha o primeiro lugar no investimento de capital fixo e corrente, em importação, de novos equipamentos, na construção de novas fábricas e naturalmente na dimensão do emprego criado. Em 1916, deveriam laborar no nosso País cerca de 160 fábricas ou oficinas de lanifícios. Em relação ao nosso concelho (Seia), já em 1881, num "Inquérito Industrial", eram referidas algumas oficinas de lanifícios em Seia (2), em São Romão (3), Loriga (7), e Alvoco da Serra (3).



Em Valezim desde 1866 que o industrial, Cândido Augusto Albuquerque Calheiros tinha uma oficina-fábrica (chamada de "Engenho") de fiação e cardação de lã. (já fizemos referência a esta fábrica em post anterior, na 1ª metade do séc. XVIII, possivelmente como tantas outras foi comprada e alterado o seu nome). Este mesmo industrial recebeu o titulo de Conde de Refúgio e depois de Conde da Covilhã e expandiu a indústria na região, em particular na vila de Unhais da Serra. Algumas das fábricas foram alterando o nome/proprietário ao longo do tempo, por exemplo; Dias & Pereira (Ceia (Vodra)), 1875, passa para João Dias & Sócio em 1905. Já em 1939, com apenas 20 operários é comprada aos herdeiros de João Dias pelo Comendador Joaquim Fernandes Ferreira Simões, pouco antes do inicio da segunda guerra mundial.
Nestas empresas fabricavam-se saragoças, briches, pano-mescla, baetas e palmilhas. No seu conjunto eram ainda muito tradicionais, imperando a roda hidráulica. Começam aparecer as máquina a vapor, força motriz alternativa. Curiosamente foi uma oficina-fábrica de pequena dimensão a 1º a possuir esta novidade industrial. A Dias & Pereira em Vodra, tinha uma máquina de 11 cavalos (fraca potência), mas a alternativa possível para fazer face à redução do caudal da ribeira de Vodra na estação seca. A máquina não funcionava todo o ano, no Inverno a energia utilizada era apenas hidráulica. Havendo pouca água trabalhavam as duas em simultâneo e no Verão, quando a ribeira secava, apenas podia ser usada a máquina a vapor.
Estas dificuldades obrigavam a uma cuidadosa gestão da água, surgindo mesmo conflitos entre agricultores e industriais, o que levava a que se recorresse frequentemente a trabalhos à noite, quando a água ficava mais disponível para a indústria, porque os lavradores não regavam. Apesar das quezílias, é unânime que a existência de energia hidráulica na Serra da Estrela, foi a principal culpada pelo atraso na introdução da ultima  tecnologia em termos de energia, o vapor. No inicio do séc. XX, continuava a roda hidráulica a alimentar a indústria no concelho. Energia a vapor, não obrigado. Apesar disso, a fábrica Martins & Camello, em São Romão, já possuía máquina a vapor em 1910 bem como a Pereira & Genro, em 1913.
Mas não era só a energia que dificultava a produção, a principal matéria prima (lã)  e o crédito também não abundavam. As lãs fornecidas pelos rebanhos locais, "longaes" não sendo suficientes para alimentar a indústria da região, eram consideradas de pouca qualidade para tecidos finos. Assim tonava-se necessário ir adquiri-las ao Alentejo, apesar do inconveniente de a lã alentejana, muito suja, perder na lavagem, metade do peso. Segundo o industrial António Brandão, as lãs importadas tinham maior "quebra" que as nacionais. Conforme já referido, o crédito era escasso, porque os estabelecimentos bancários existentes na vila, não viam com bons olhos este tipo de operações e os particulares emprestavam a troco de juros de 10% ou mais.    

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sabia que...

Fontes:
"Os Forais Manuelinos das "Vilas" do Município de Seia" - António H. P. Melo (2005)
"O Actual Concelho de Seia, na primeira metade do séc XVIII" - António Herculano da Paixão Melo (2003)
"Seia - porta aberta para a Serra da Estrela..." - Héstia editores (2002)

Os panos de lã começaram a ser produzidos em Portugal, ainda antes do seu nascimento. Eram panos "grosseiros" e "buréis" destinados ao povo. O clero e os nobres compravam os panos "finos" importados.
No século XII, são referidos com frequência  artesãos destes "buréis", como os "tosadores", os "tecelões" e os "tecedeiros", assim como os "teares" e os "pisões", onde os panos eram molhados e batidos para adquirirem maior consistência. À época, era um grande avanço tecnológico, montar os mesmos junto de correntes de água. Nos forais de D. Afonso, aparecem como grandes investimentos.
Nos forais de D. Manuel I, são fixadas taxas a pagar pelos "Panos finos", Seia e "Panos" em S. Romão;
Foral para Seia, concedido em 1 de Junho de 1510, na cidade de Santarém:
"Panos Finos
De todos os panos de seda ou de lã ou de algodão ou de linho, se pagará por carga maior, nove reais. E por menor quatro reais e meio. E por costal dois reais e dois ceitis. E por arroba um real. E dai para baixo soldo à libra quando vier para vender, porque quem levar os ditos panos ou de cada um deles retalhos e pedaços para seu uso, não pagará portagem, nem o farão saber.
Nem das roupas que comprarem feitas dos ditos panos. Porém, os que venderem pagarão como dos ditos panos na maneira que acima neste capítulo é declarado."
Foral para São Romão, dado em 22 de Janeiro de 1514 na cidade de Lisboa:
"Panos
E pagar-se-á mais de carga maior de todos os panos de lã, linho, de algodão de qualquer sorte que sejam, assim delgados como grossos. E assim da carga de lã ou linho fiados oito reais. E se a lã ou linho forem em cabelo, pagarão quatro reais por carga."

Assim como na actualidade, este sector já passou por muitas crises ao longo da história e no inicio séc. XVIII, as autoridades quiseram incrementar a produção local com algumas medidas. Uma delas, foi a obrigatoriedade dos militares usarem fardamento produzido na Covilhã. Na mesma altura o tratado de Methwen abria as fronteiras aos panos ingleses. Internamente, os condicionalismos eram contraditórios, como acontecia na regulamentação que proibia os tecelões da Guarda de trabalharem para os seus clientes, enquanto houvesse encomendas do Exército.
Ainda em relação ao séc. XVIII, conseguimos retirar das "Memórias Paroquiais", compiladas pelo Dr. António H. P. Melo, a seguinte informação;
Em Valezim os seus 250 vizinhos, "os mais deles mercadores de panos de vara, que se fabricam nesta terra".
Apenas sobre Valezim é referida a existência de tal comércio e fábrica, possivelmente esta actividade existia noutras terras, mas não é feita qualquer referência.
Em relação aos "pisões" existe noticia da sua existência em São Romão (11), Loriga, Valezim e Vila Cova (3 em cada) e em Alvoco da Serra (1). 
Valezim poderá ter sido, no nosso concelho, terra pioneira no fabrico de lanifícios. Era, na 1ª metade do séc XVIII, uma actividade industrial e comercial de relevo, fornecedora de receitas para os seus fabricantes (talvez artesanais) e comerciantes, por acréscimo, da população em geral.
Esta fábrica, em Valezim, fechou há cerca de 70 anos. Era movida através de uma roda hidráulica e cujo edifício ainda se conserva. Voltaremos a falar desta fábrica noutra época e noutro post.